Sábado, Junho 20, 2009




PRESENTES

Para mim quem bateu o recorde do incômodo e de aborrecimento por causa
de amigos foi aquele herói de Godofredo Rangel, a quem deram, num embrulho
de jornal, oitenta contos de réis para trazer de Minas e serem entregues a uma
firma daqui. O homem passou três dias sem poder comer, nem palitar os dentes,
nem pregar o olho. E no fim, ao contar o dinheiro, sob a vista desconfiada do
gerente, constatou que faltavam dois contos de réis.

Essa mania brasileira de mandar coisas por amigo em viagem, me beneficiou
agora com uma caixa de charutos especialmente enviada da Bahia pelo poeta
Odorico Tavares, sob o patrocínio casagrandesco de Gilberto Freyre.

À vista do que senti de agradável surpresa, compreendo a paciência dos que,
nos hotéis vertiginosos de hoje, amontoam vestidinhos, brinquedos, livros e até
pentes para regalo dos que no fundo de uma província esperam lembranças com
olhos antigos.

Esse Brasil ainda não acabou. E pode até suceder que, num avião a jato,
se mandem perus de recheio para a gula dos comilões do Natal.
Nesse caso eu também quero um.

Correio da Manhã – 26 de outubro de 1947

In Oswald de Andrade. Obras Completas – Telefonema.
São Paulo: Globo, 2007. (2ª edição aumentada)
Organização, introdução, posfácio e notas:
Vera Maria Chalmers.


"Filho único mimado pela mãe amazonense, generosa, afetiva e economicamente,
dando-lhe tudo para que se tornasse escritor, Oswald De Andrade é o homem da mulherofilia,
além do macho femeeiro em sua vida e obra. Viveu amores românticos com várias mulheres
e sem sovinice. Antecipou com Pagu nos anos 30 a Nouvelle Vague godardiana na mescla de
lirismo com política, que continua em A Morta. Sua antropofagia é a denúncia do machismo
patriarcal arraigado na sociedade brasileira. Cultura só para homens. É enganosa a fofoca
de ter sido machão comedor, voraz e compulsivo, por causa do lema "bom estômago
e pau duro". Em sua crítica à ideologia fálica capitalista delineia-se a unidade orgânica entre
o sol, o trópico, a floresta, o matriarcado, projetando o útero como divisa lúdica do Estado-Mãe
na América do Sul, ou seja, uma sociedade antípoda do "utilitarismo mercenário e mecânico
do Norte". Gilberto Vasconcellos, em obra ainda inédita em livro: Sol Oswald:

http://www.gradiva.com.br/site/scripts/gilberto.htm
http://sociologiacienciaevida.uol.com.br/ESSO/Edicoes/19/artigo113361-1.asp
http://1.bp.blogspot.com/_BpQ0Csl7Poc/SfzL7ktkKqI/AAAAAAAAALk/8NJwPDBDrYk/s1600-h/
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http://2.bp.blogspot.com/_BpQ0Csl7Poc/SfusD_BBylI/AAAAAAAAALU/ha9efKiweC4/
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por aly . 1:26 AM .

Segunda-feira, Junho 15, 2009




Cabral recebe em Genebra, um dia, a visita de Vinicius de Moraes, que passa
uma temporada de trabalho em Paris para escrever o roteiro do filme Arrastão.
Vão a um bar e Vinicius, logo, saca seu violão e começa a desfiar suas últimas
composições.

Cabral se irrita com o sentimentalismo do amigo. "Me desculpe, Vinicius",
interrompe, "mas por que todas as tuas músicas falam de coração. Será
que você não tem outra víscera para cantar?"

Vinicius de Moraes, como sempre, não perde a pose: "Pois é João, você
continua o mesmo nordestino seco. Mas, um dia, ainda hei de colocar
música em um desses teus poemas de cabra", ameaça. A praga jamais
foi cumprida.

Chico Buarque de Hollanda só consegue musicar Morte e Vida Severina
porque o faz sem que Cabral o saiba. Só depois de ter a melodia pronta,
o jovem Chico a exibe ao poeta. "Se ele tivesse me pedido autorização
antes", Cabral confessa depois, "eu teria respondido: 'Nem tente'."

In José Castello. João Cabral de Melo Neto: O homem sem Alma
& Diário de Tudo
. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.


"O livro mais doloroso e pungente que li nos últimos anos foi o
autobiográfico Retrato do Artista quando Velho, de Joseph Heller.
Não tinha ainda lido o livro de José Castello. Agora, estou certo
de que o livro mais doloroso e pungente que me caiu às mãos
nos últimos anos é João Cabral de Melo Neto: O Homem sem Alma".
Silviano Santiago,

por aly . 11:03 AM .

Segunda-feira, Junho 01, 2009


A primeira pisada na Lua, por Neil Armstrong, 20 de julho de 1969: 23h56m, hora de Brasília


Notice

A la misma hora,
más o menos,
que el señor Neil Armstrong,
astronauta norteamericano,
ponia los pies, por vez primera,
sobre la superficie de la luna,
mi mujer y yo,
en pijama,
matábamos a escobazos
un ratoncillo
que se nos habia metido
en la habitación,
al anochecer,
y que hasta entonces
no habiamos conseguido
localizar.

Miquel Martí i Pol in Poemas.
Revista Hora de Poesia: 55-56,
Enero-Abril, Barcelona, 1988.
(Tradução do catalão para
o castelhano: Albert Tugues)


"É um pequeno passo para um homem, mas um gigantesco
salto para a Humanidade". Neil Armstrong, ao pisar na Lua
em 20 de julho de 1969,

por aly . 2:37 AM .



Tudo cabe, mesmo o descabido.
A vida não é um armário.





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14 novembro 2002



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